É Meia Noite

      É meia noite, na praça ainda ecoava a décima segunda badalada do sino da igreja matriz, se a praça horas antes era festiva, agora recebia um visitante ilustre, o silêncio. Um mocho pousou sobre um galho seco de um cedro despido de suas folhas, sua copa agora estava rosa de flores, parecia um grande buquê oferecido a deusa lua. Seu voo foi tão silencioso que nem abalou as primeiras gotas de orvalho que caíra na árvore. O silêncio parecia deitar-se em cada banco onde o único som era do vento.

A madrugada enchia-se de encantos, o frio e a solidão passeavam de mãos dadas sem ninguém  para quebrar o místico momento. Sem pessoas, sem barulho, só os espíritos visitavam  seus lugares prediletos, agora em uma liberdade merecida e incontestável. De repente o som de um violão e a voz trêmula de um ébrio fez-se ouvir bem distante. O mocho em seu disfarce de um galho morto não se incomodou e permaneceu estático.

Aos poucos o seresteiro solitário se aproximou da praça, sentou-se em um dos bancos e abraçou a sua saudade, cantou seus devaneios e as lágrimas refletiam as pequeninas estrelas, luzes apagadas, só o brilho do firmamento clareava a praça, é meia noite, a ausência da luz e as sombras visitantes, misturavam-se a nostalgia daquele anônimo triste, que sem saber que tinha uma platéia a lhe ouvir, conversava com o passado.

Por incrível que pareça, temos muitas meia noite dentro de um dia, onde ficamos nas praças de nossos pensamentos, cantamos o ouvimos as músicas de nossas lembranças e involuntariamente nos perdemos e nos achamos dentro das nossas vidas e sonhos, mas sempre temos um público a nos ouvir, nem que seja a nossa própria loucura.

Nossas vidas são repletas de luzes e sombras e nos permitem ser aquilo que é aparentemente nosso mundo, mas precisamos de uma certeza, as estrelas continuarão brilhando e iluminando nossos  caminhos.

Maninho

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2 comments

  • Carmen Lopes /

    As dualidades coexistem dentro de nós e como opostos que se digladiam, cada um quer ganhar mais espaço.A luz e a sombra, a razão e a loucura, o som e o silêncio.Somos feitos desses elementos díspares, mas muitas vezes a loucura se confunde com genialidade.

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